segunda-feira, 26 de abril de 2010

Televisão

Ele zapeava a televisão, eram 200 canais e nada útil para se ver em uma tarde de segunda-feira. The History Channel, uma história sobre homens de preto, óvnis que matam pessoas. conspiração e fim do mundo. Tudo que ele queria era o fim daquele dia, só isso, o mundo podia facilmente esperar. Ele queria aquela máquina que faz tudo, qual era o nome dela mesmo? Juicer alguma coisa. Ela devia ser útil, rala, corta, espreme, bate. Aquele homem que falava na televisão tinha uma voz engraçada. Ele queria ter pagado o Playboy TV, ou aquele outro canal de luta. Talvez assim pelo menos ele se divertia de algum modo.

Sua televisão parou no TV Coréia. Quem ia ver esse canal? Claro, e o canal nem ao menos funcionava. E quem vai pagar a Net para ver a TV Coréia? Aquilo não fazia sentido. "Por favor, quero a Playboy TV, TV Combate e o TV Coréia". Tinha outro canal que parecia que eles falavam alemão, ou holandês, ou qualquer língua que ele não fazia ideia do que falavam. Era um homem careca, de óculos e terno e outro que parecia o doutor que falava sobre sexo no GNT. Não, e não era a velhinha tarada que passava de madrugada na GNT. Sue. Ela era bem tarada.

Tinha uma mulher bonita apresentando culinária no canal italiano. Mas ele passou rapidamente, já era hora do almoço e ele não estava com saco de pegar algo para comer. No SciFi Channel passava Star Trek, a série tinha sua idade e ainda passava. Ele sempre se perguntou quem assistia. Todo mundo já deve ter visto todos os episódios disso e aquilo era muito chato. Muito chato. Ele se arrependeu de novo de não ter comprado o canal Playboy.

Se apagasse a televisão, teria que trabalhar. Preferia o tédio da televisão, definitivamente. Pensou novamente naquele juicer. O programa dizia que cortava tudo. Devia ser útil. Era caro e ele não ia comprar frutas e legumes para experimentar o produto. Ele nem ao menos sabia cozinhar. A fome bateu de novo. O telefone estava longe e a preguiça era maior. Dane-se.

Talvez ele devesse fazer um regime. Olhou para sua barriga dobrada, pança. Bateu um dedo nela. Era engraçado. Ela parecia gelatina. Bloun. Mexia. Era a cerveja. Talvez ele devesse parar de beber cerveja. A cerveja tinha acabado, ele teria que sair para comprar. O miojo também e o feijão pré-pronto também.

Regime era uma boa opção. Dizem que se você para de comer, você continua engordando. Era como se seu corpo encarasse aquilo como uma mensagem de falta de alimento e lhe desse a gordura guardada para você ficar mais forte. Ele tinha estudado isso uma vez, mas não era assim. Se parar de comer engordasse, os caras da Somália seriam tudo gordinhos. Que mente sacana, cara. Eu vou para o inferno. Mas se você é ateu, não tem essa, certo?

Aquele pensamento lhe deu fome de novo. Ele viu a propaganda sobre um produto para filtrar a água da pia. Aquilo o lembrou que ele ainda não tinha tomado banho. Será que ele pegou a conta de gás? Pegar, ele pegou. Pagar é outra história. Ele tinha que comprar cigarro também e isqueiro. O gás do isqueiro acabou. Isqueiros Bic não são mais como antigamente! Acabou em um mês. Antes ele ficava com o mesmo isqueiro durante meses.

Por que todo mundo começa a pensar em mudar a vida em uma segunda-feira? Teoricamente o a semana começava no domingo. Ninguém pensa em mudar a vida no domingo. Domingo é dia nulo. Faustão. Faustão tinha feito uma cirurgia para ficar magro. Se até o Faustão fez isso, talvez ele realmente devesse fazer regime. Será que o Faustão está usando aquelas cintas engraçadas? Aquilo deve feder, o dia inteiro com a mesma cinta, 30ºC na rua. Banha e suor.

A Net saiu do ar. Nem a Globo funciona. Deve estar passando Chaves no SBT. Ele lembrou da matéria sobre o Quico que leu no Estadão essa manhã. Aquele cara tava velho, as bochechas dele estavam parecendo de um cachorro. Por que esses caras nunca sabem a hora de parar? Tudo que ele queria era a aposentadoria e tudo que o Quico fazia era trabalhar. Gente doida.

Na matéria falava de cachorro quente. Algo como cinco reais para um cachorro quente. Muito caro. Mas agora ele pagava. A fome estava apertando. Ele olhou para os pés. Tinha que levantar. vai, coragem, pelo menos até a geladeira, deve ter um macarrão velho do dia anterior com um molho já estragado. Ele se levantou devagar, aquele gemido de saco cheio. Passos curtos, corpo para baixo. Gravidade é um saco, parece que te joga no chão. A barriga fazia aquele barulho engraçado a cada passo.

Ele desligou a TV. Energia era caro. Mais tarde ele ligaria para o canal de compras. Talvez um juicer fosse um incentivo para um regime. Tem aqueles produtos de exercício também. Além disso, ele podia fingir que não deu certo e pedir o dinheiro de volta depois. A banha dele era mais do que a prova de que os produtos não funcionaram. Boa ideia.

domingo, 7 de março de 2010

Psicólogo

Sempre imaginei que encontraria somente um divã. Talvez uma poltrona para ele se sentar, uma pequena mesa com papéis organizados de maneira paranoica, um livro de Freud só para fazer imagem de bom profissional e uma pequena estátua de um homem careca, só o rosto dele, para representar a mente humana.

Mas não foi exatamente assim quando entrei na sala de consulta. O ambiente não era escuro como sempre imaginei, daqueles com só cortinas, bem mal iluminado e com somente a luz de um abajur de luz quase nula no canto da mesa. Na realidade parecia minha sala, clara, com móveis brancos, paredes brancas, janelas grandes e lâmpadas frias, duas poltronas de bom gosto e confortáveis de frente a mesa, atrás dela uma poltrona grande e ainda mais confortável para o psicólogo, afinal ele fica lá o dia inteiro, nada mais justo que um bom lugar para se sentar.

Também nunca pensei em uma psicóloga, assim... Uma mulher, mesmo sabendo que quase todos os cursos de psicologia a predominância é feminina, minha mente sempre imaginou um homem velho, com barba de algodão, óculos meia lua, alto e com mãos com dedos finos e longos. Mas lá estava ela, uma mulher de estatura média, sorriso largo, bonita e cabelos sem um fio branco. Talvez fosse para dar confiança.

Não que eu ache que tenha funcionado.
Isso não significava que aquilo ia ser mais agradável.
Não mesmo...
Nada agradável.

Eu sabia que quando a parte de apresentação terminasse, as coisas iam se complicar, aquela confiança de "finalmente me assumi maluco" ia desaparecer e eu ia entrar em choque, talvez. E foi, quando a primeira pergunta veio eu já não sabia o que tinha que fazer.

Eu nunca entendi essas perguntas que eles insistem em fazer. É óbvio que se soubéssemos responder, não estaríamos ali. E como eles pensam que nossa mente realmente funciona? Acham que temos pensamentos precisos, concretos? Que sabemos o que queremos, que sabemos o que sentimos?

Francamente!

"Como você se sente?". Isso para qualquer pessoa seria normal, você fala em automático um "muito bem", ou só acena a cabeça com um leve sorriso e canto de rosto, retribui a pergunta fingindo fortemente estar interessado, mesmo que na maioria das vezes você não dê a mínima para a resposta do outro.

Mas para um psicólogo é diferente. Você tem que responder de verdade, sem a resposta automática, tem que pensar no que vai falar, se disser um "muito bem", ele vai lhe perguntar por que você está ali, afinal. E ai entra em um papo de como você não sabe mexer com seus sentimentos e tudo vai por água a baixo, você sai de lá mais depressivo do que quando entrou, procura o modo mais fácil de se matar, se joga encima de um carro e não morre. E ai você vai ser obrigado a conviver com aquele cara, no caso aquela mulher, até o resto de sua vida por ser um depressivo suicida.

Mas os psicólogos nunca pensaram como responder a essa pergunta pode ser complicado.

Eles esperam fielmente que nós tenhamos uma resposta curta e precisa. Ninguém nunca realmente imaginou que nossa mente vaga por diversas direções diferentes e que nada é preciso. Para eles isso pouco importa, ou importa muito e eu não faço ideia disso.

De qualquer modo eu congelei com aquela questão, porque sabia que logo após viria as outras. "Por que você se sente assim?". Essa para mim é praticamente uma ironia, uma brincadeira de mau gosto do próprio doutor.

Se eu soubesse não estaria ali.

Foi ai que eu pensei, eu fiquei um tempo calado, para mim foi pouco, mas foi quando eu vi a psicóloga olhar para o relógio impaciente que vi que tava a tempo de mais calado. Eu nem sei o que sinto! Nem sei o porquê disso, e se ela não sabe, aquilo vai mal.

E eu nem queria esperar para que a pergunta "por que você fuma?", ou "por que você bebe?", ou "por que você transa?", viesse a tona. Eu me forcei a sorrir e falei qualquer bobagem que nem eu mesmo entendi, estendi a minha mão e a cumprimentei e disse um "desculpe, pensei que estava na área de dermatologia", ou algo do tipo.

Dei uma leve risada fingindo que realmente me enganei e pedi desculpas por fazê-la perder seu tempo, mas eu tinha uma reunião urgente e não podia me atrasar.

Levantei-me e fui embora com a mesma velocidade que entrei.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sem Título

Sem explicações ou comentários hoje, caros leitores. Só desabafos.

Abraços,

Da Autora.

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Eu voltei para casa em passos largos mas fracos, não sabia se me sentia aliviada, ou se me sentia destruída. A sensação que perdi algo que não queria, mas outra que queria, me deixou um tanto confusa e desanimada. Nunca pensei que voltaria para casa com um trecho de uma letra de Renato Russo, logo eu, que sempre o detestei (nada contra quem gosta, simplesmente não consigo gostar). Aquela velha melodia cantarolada por Cássia Eller, "sem saber, que o pra sempre, sempre acaba".

As pessoas passam a vida inteira esquecendo que o para sempre não existe. É infeliz pensar que tudo acaba, mas é a realidade. Eu não queria um jeito, ele não queria outro. Nossas conversas ainda fluíram tranquilamente, mesmo que o assunto para elas agora fossem tensos. Era um problema de pensamentos não entendidos, ele não me entendia e eu não o entendia, mesmo que forçasse a minha mente a entendê-lo, não sei se ele fez o mesmo.

Eu deveria me sentir aliviada, como se a conversa que queria ter desde o começo, tivesse acontecido, que todas as cartas tivessem sido colocadas encima da mesa e todas as confusões solucionadas.

Eu tive a conversa.
As cartas estavam na mesa.

Mas as confusões não foram solucionadas.

Eu me senti inútil, não conseguiria dar a ele o que ele queria. E mesmo que durante muito tempo ele não reparasse, eu dei tudo que eu podia oferecer para conseguir agradá-lo. Não consegui o que ele mais queria e era tão simples! Ninguém entende realmente como a mente funciona, como os sentimentos são postos, como eles mudam drasticamente de um dia para outro.

Mas eles mudam e não há nada que possamos fazer para tentar recuperar o antigo sentimento que, provavelmente, poderia agradar a ambos.

Eu sempre falei, de um modo mais jovial e divertido, que eu era a imagem da metarmofose ambulante. Mas nunca realmente acreditei nisso até tudo acontecer. Até eu simplesmente não conseguir amá-lo como devia, abraçá-lo como de costume e beijá-lo como antes gostava. Tudo se transformou em pó, em um passado distante. Eu estava lá, mas não era a mesma.

Definitivamente não era a mesma.

Acho que, se Deus realmente existe, Ele deve ser um cara muito sacana e com uma ironia ácida, daquele modo de criança quando gosta de pegar bonequinhos e desmembrá-los só por diversão, sem um motivo próprio. Porque me senti em um jogo irônico, malvado, onde eu não tinha mais escolhas.

Minto. Sim, eu tinha escolhas.

A escolha de me amar e tentar ser feliz e a escolha de amá-lo e ser infeliz. Era como um gosto da derrota, aquele gosto amargo que fica preso na garganta, que não desce nem sobe. Fica preso lá, sem se mexer, cutucando sua garganta de tempos em tempos para te lembrar do fracasso.

"Você não conseguiu", eu podia escutar em minha mente. "Ele te odeia e pensa que você o enganou". Eu podia conviver com isso, pelo menos por um tempo.

Há sinceridade no que digo. Não engano. Não tenho a capacidade de enganar, não a alguém que amo, mesmo que não do modo que lhe foi desejado. Eu chego a ser má pela falta de senso e pela falta de jeito por não enganar. Evito falar o que é falso.

Parece egoísta da minha parte e pode até realmente ser. Não me importo com isso. Já assumi que todos são egoístas, mesmo que não gostem de dizer isso desse jeito, dizem "eu penso em mim", mas para mim tem o mesmo valor. Eu pensei em mim, porque pensar nos outros não me levaria a nada no final. Além de um poço fundo de infelicidade e frustração por não ter feito o que eu queria para mim.

Eu sou jovem e pensar que essas coisas passam em minha mente sendo que nem ao menos cheguei aos 30 - faltam ainda 11 anos para isso acontecer - me deixa visivelmente preocupada. Não quero envelhecer rápido de mais, afinal, tudo acaba e um dia - espero que daqui há, no mínimo, 50 anos - terei olheiras, peitos caídos, boca fina e orelhas enormes. Estarei numa cama, vendo pessoas indo e vindo, vendo outras morrendo. Não terei mais sonhos a seguir, porque não terei como seguir, eu simplesmente vou parar, acabar a metamorfose e ficar. Enquanto ainda não chego aos momentos tensos de minha vida, enquanto ainda posso crer na juventude de meus sonhos, não vou parar. Egoísta, mas infelizmente real.

Pensar no eterno e no para sempre não me leva a nada, somente a momentos felizes, momentaneos e imaginativos. De qualquer modo, talvez, somente talvez, eu, em minha tentativa de não envelhecer muito rápido, já tenha feito isso por pensar tão cautelosamente sobre minhas decisões. Mas sobre isso, não pretendo pensar. Seria mais uma grande frustração e estou farta dessas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Do outro lado da Porta

Olá, depois de tanto tempo, hein, meus amigos? Cá estou eu, o texto não tem muito sentido, mas tem sentido para mim. Eu espero que vocês consigam entende-lo, prometo que daqui para frente, esse blog parará de ficar parado!

Beijos e Abraços,

Da Autora.

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Eu tinha simplesmente fechado a porta atrás de mim. Não era uma tarefa difícil, nem ao menos algo que merecesse muita concentração, mas me senti arrasado e um pouco aliviado. A sensação de não estar feliz daquele lado da porta, me matava a cada momento, destruia cada pedaço da minha alma e me tirava noites de sono, mesmo com a destruição que fui obrigada a oferecer para me fazer feliz, essa destruição que me arrasou um pouco, porque sabia que algo tinha terminado para sempre, sinto que nunca entendi tão fielmente o significado da frase "valer a pena". No final não existe o outro, o sentimento alheio e a felicidade alheia, se eu não me focasse em mim, no meu sentimento e em minha felicidade, transformar a outra pessoa em alguém de bem com a vida, não valeria absolutamente nada.

Seria andar a cada momento dentro daquela sala, olhar para a porta que me daria o alivio e virar as costas porque vi outra pessoa sofrendo. Para ser sincero, no mundo existe você, não existe alguém que te ame mais além de si próprio, tudo é passageiro, todos vão embora, morrem, desaparecem, viram poeira cósmica. O que se mantém, o que precisa se manter feliz, é você. É estúpido o que inventou o "para sempre", uma simples enganação sentimentalista que não serve para porcaria alguma, talvez para partir os corações das pessoas que uma vez disseram isso.

O que mais me importa foi ter certeza de minha consciência, aquela que se manteve tão limpa quanto o bumbum de uma criança recém-nascida. Não falei nada que não sentia, nem agi de maneira que eu achasse imprudente, usei as palavras que se encaixavam no momento e não disse outras simplesmente para agradar alguém. Falar um "eu te amo" em qualquer momento, torna a palavra banal. Falar um "eu te amo" quando você simplesmente não ama a pessoa no sentido encaminhado, te torna um ser falso. Eu não fui falso em nenhum momento, deixei o "eu te amo, meu amor" e mantive o "eu te amo, cara", que possui um significado completamente oposto ao anterior.

A porta se fechou, eu girei a chave, eu joguei a chave fora e eu não me importei mais. Liguei para alguém, dei uma volta e acendi um cigarro. Dei belas tragadas, sentindo a nicotina entrar em meu organismo e me relaxar aos poucos e ai eu destruí aquela porta pela minha imaginação. Eu queria poder deixar aquela porta entreaberta, deixar quem está do lado de lá, vir para o lado de cá, dar um oi, um aperto de mão e pedir uma tragada do meu cigarro. Mas como era impossível, eu aceitei a decisão alheia. Se magoei, parei.

Eu fui embora e caminhei pela rua deserta, apagando meu cigarro no asfalto e sentindo o ar da noite que percorria meus pulmões, ardendo com o frio, fechei os olhos quando a lua apareceu, naquele dia ela estava maior do que o resto do ano, era alguma coisa que envolvia ciência, o que importava era que aquele queijo grande no céu estava maior ainda, parecido com a minha liberdade. Ela crescia do mesmo modo. Eu sabia o que eu queria fazer, sou jovem e tenho uma boa vida, não quero que ela acabe aqui, vou seguir e fazer o que planejei, aquelas coisas que imaginei que ia fazer fora daquele lado da porta.

O que mais me espantava era que não me sentia mais mal, não tinha mais aquela sensação de peças fora do lugar como eu senti alguns anos antes quando fechei outra porta. As peças estavam lá, nos seus lugares, certinhas, limpas, bem ajeitadas. Eu sorri feito um bobo pensando que no final, nada mudou. Eu só parei durante um tempo e lá estava eu de novo tomando meu caminho. Aquela sensação era uma das melhores da vida, você sabe que nada pode te desanimar, mesmo sem quarto, casa, cama, comida. Somente aquele chão frio e aquela lua grande lá encima, era o suficiente para eu me sentir no lugar. Eu estava cansado, mas cansado porque fiquei mais tempo do que o planejado parado. Aos poucos você se acostuma com a sensação e suas forças voltam como eram antes.

Ativas. Eu estava novamente ativo.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Espírito Natalino

Olá a todos, por milagre eu voltei, um milagre natalino. Venho lhes trazer o que eu considero o verdadeiro Espírito Natalino, inspirado em amigos e principalmente nas minhas conversas com Thiago Mattar.

Espero que gostem,

Beijos e abraços
Da Autora.

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As luzes de natal apagavam e acendiam. Eu tentava fumar um cigarro na janela da cozinha quando eu perdi totalmente a concentração com aquelas luzes. O mais estranho é que já estávamos em janeiro, metade de janeiro, e aquelas luzes ainda não tinham saído. Aquilo me deixava não só irritado como deprimido.

Será que o tempo tinha passado tão rápido e já estávamos em dezembro de novo? Eu sei que isso seria impossível, mas era exatamente essa idéia que me passava pela cabeça quando via aquelas luzes piscando, aquelas árvores de natal falsificadas nas janelas dos apartamentos vizinhos.

Eu nunca entendi porque usamos pinheiros no Brasil no natal, aqui nosso natal é quente e sem neve, a coisa mais parecida com neve que temos é a chuva de verão. Mesmo assim em cada lugar que vemos, pinheiros com cores natalinas e com neves artificiais. Eu preferia ter uma palmeira como enfeite de fitinhas do Senhor do Bonfim em minha casa, se fosse assim.

Não é por menos que o índice de suicídio nas festividades de fim de ano aumentam. É realmente deprimente e exaustivo. Quem nunca decorou o Ave Maria, como é o meu caso, sofre nessas épocas. Naquele momento quando bate a meia noite e você não comeu nada desde a uma da tarde e ainda assim, nessa meia noite você é obrigado a fazer uma roda de mãos dadas e rezar o Pai Nosso e o Ave Maria quando tudo que você pensa é como aquele peru está suculento e como você está morto de fome e provavelmente bêbado depois de tanta bebidinha para socializar que você tomou com o estômago vazio. E ainda te obrigam a abraçar as pessoas que até ontem estavam te mandando a merda.

As duas únicas coisas que me veem a cabeça quando penso em natal são: 25 de Março e transito. Talvez porque sejam as duas coisas que mais eu veja nos noticiários da TV quando estou em casa, é só você ligar a TV e aparece aquela rua parecendo um formigueiro, pessoas com sacolas enormes, suados e se trombando, depois imagens que sobrevoam o caminho para as estradas que levam a praia mais próxima, agora são formiguinhas com carrinhos de brinquedo, parados durante horas, sabendo que só vão conseguir colocar os pés em uma praia daqui umas 12 horas. O mais irônico é eu estar sozinho em casa nesse momento, sem ninguém me trombando, vendo tv e incrivelmente entediado.

Quando resolvo sair de casa me sinto pior, entro em um shopping e a primeira coisa que escuto são crianças gritando para ver um velho com barba de algodão e uma roupa vermelha que deve estar o fritando por dentro. Penso mais uma vez naquele suor da 25 de Março, aquele cara vestido de Papai Noel deve estar sentido a mesma coisa e deve ser ainda pior quando ele chega em casa cansado de abraçar crianças, perguntar se elas foram boas com seus pais e falar "ho ho ho" e ai escuta sua mulher lhe perguntar: "Você vai se vestir de Papai Noel para meus sobrinhos no natal, não vai?".O pior é que ela ainda reclamava quando ele levava trabalho para casa.

Eu sempre quis saber qual era a sensação de passar um natal em casa, comendo miojo e tomando uma cerveja sozinho, no máximo com uma pessoa ao meu lado, vendo algum filme que não envolva o Espírito Natalino, porque, no final, vai ser mesmo um dia qualquer. A diferença é que após a meia noite e após as orações e abraços desnecessários, eu voltava cinco quilos mais gordo com a comida de natal.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Aniversário

Há algo que eu sempre disse sobre a felicidade, eu imaginava que uma pessoa realmente feliz é aquela que olha para trás e sorri lembrando de cada coisa que viveu, hoje eu fiz outra coisa, além de olhar para trás, eu olhei para frente e sorri, não importando quantas coisas já me fizeram chorar ou me fizeram sofrer, ou como minha infância foi feliz e como eu tenho história para contar, mas como o momento que vivi no agora fez parte fundamental de minha vida.

Aniversário muitas vezes não parece bom, porque significa que você está ficando mais velho e perdendo as diversões que tinha quando jovem, ou que as responsabilidades vão aumentando, ou então a parte chata de receber telefonemas daquelas pessoas que nunca se lembram de você o ano todo e que só conversam com você por cinco minutos nessa data e no natal. Mas hoje eu nem me importei.

As pessoas que eu amo estavam presentes e eu me senti como se estivesse naqueles filmes clichês hollywoodianos, onde a família está toda reunida, todos sorrindo e conversando, rindo horrores falando de bobagens que nunca costumam falar, e foi tudo isso. Muitas pessoas têm o costume de se nomearem pessoas “família”, aquelas que se dizem caseiras, que amam ficar em casa com suas famílias, algumas dessas pessoas falam isso simplesmente da boca pra fora, mas eu acho que sou diferente, porque eu estar lá, com meus pais, minhas primas, meu irmão, minha tia e principalmente minha avó, foi o maior presente que eu poderia receber esse ano.

Eu via tudo em slow motion, cada ato e cada conversa, cada lembrança besta que tivemos juntos, cada palavra idiota que eu falei, tudo. E não é só isso, eu me senti tão inteiramente feliz que comecei a pensar que todos os planos que fiz em minha vida podem esperar alguns minutos, todas as responsabilidades, trabalhos e coisas chatas, naquele minuto podiam desaparecer.

Ninguém sabe o que é receber o mundo coberto de chantili e cheio de cerejas de seu melhor amigo, o que é escutar de sua família a sinceridade de que eles se orgulham de mim, o que é abraçá-los e se sentir totalmente completa. É assim que me sinto agora.

Depois de tantos aniversários, 18 para ser exata, esse décimo nono aniversário foi o melhor de minha vida, e eu agradeço muito, agradeço a minha família, aos meus amigos, ao meu querido Thiago M. Mattar, aquele que em pouco tempo se tornou o amigo que eu mais admiro e respeito, aquele que fez esse dia e o dia anterior a ele os melhores de minha vida e que torna todos os dias que estou ao lado dele, um dia especial. Muitas pessoas não entendem essa amizade, mas eu acho que é porque nunca tiveram uma amizade pura como eu tive a honra de ter, não sabem o que é conversar sobre filmes que gostamos e termos as mesmas cenas favoritas, ou aprender um com o outro e nem ao menos ser um amor físico, e sim totalmente sentimental.

Eu acho que hoje eu finalmente posso ter certeza quando digo que estou completa, eu ainda tenho meus planos e coisas que quero fazer, coisas que quero descobrir, mas meu coração está completo, com todas as pessoas que amo e admiro, todas as pessoas que me encantam. Obrigada, por fim eu digo, por essas poucas e especiais pessoas, obrigada por estarem comigo e obrigada por me fazerem chorar de felicidade enquanto escrevo isso. Hoje eu tive o mundo “com calda de chocolate e uma cereja encima”.

Abraços de
Juliana A. M. Monteiro

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Garota Metamorfose

O grande problema de escrever e imaginar um título na minha opinião, acabei de terminar uma história e não faço idéia o que escrever como título, até corrigir os erros de português (que por incrível que pareça, mesmo sendo quase jornalista e quase escritora, são muitos) eu penso num título bom.

Eu vou tentar não demorar muito nas postagens agora, prometo que vou me esforçar!

Beijos e abraços,

Da Autora.

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Era estranho encontrar um lado vazio naquela cama, me abraçar nos travesseiros pela falta daquele corpo que antigamente eu abraçava. Era diferente acordar de manhã, atrasado e sem escutar a respiração calma dela enquanto me forçava a abrir os olhos. Hoje meus olhos se forçavam para abrir, por saber que uma vez abertos, ela não estaria por lá.

Mesmo com todos os avisos, diretos e indiretos, de sua parte, eu continuei lutando e crendo que aquilo jamais ia acontecer, que talvez fosse só coisa de cinema, que não ia acontecer comigo. Eu não me lembrava de ter jogado chiclete na cruz, mas estava recebendo um castigo e tanto. Ela me falava que um dia ia se cansar, que um dia ia me abandonar e que não ia dar aviso prévio. Que nosso amor era que nem pizza, uma hora ia encher, acabar e ela se levantaria e jogaria a caixa fora, indo depois se sentar na frente da TV para gastar tempo.

Mas ela era tão diferente! Talvez por esse mesmo motivo que ela não era o tipo de mulher que aturaria ficar ao lado de um homem comum como eu, com os mesmos papos, os mesmos caminhos e os mesmos destinos. Ela fugia de qualquer rotina, mudava o caminho de casa só para falar que não tava indo pra mesma casa, trocava a marca de cigarro porque pensava que era um modo de não viciar. Vício é uma coisa muito comum. Ela nem usava carro, porque como era muito caro trocar o carro toda vez que se cansava, ela preferia só mudar o tênis, aqueles all-star multicoloridos que não combinavam com nada.

Por acaso ela odiava combinar roupas, usava uma peça diferente da outra, e a primeira vez que eu a vi eu achei graça, achei estranho e até ri. Mas depois eu entendi a complexidade dela e a minha vontade de conhecê-la, decifrá-la foi maior.

Não é como se ela não tivesse me avisado. Ela falou em alto bom som que não era bom aquilo, que ela não queria me fazer sofrer, mas eu pensei que fosse história boba de qualquer garota que se acha muito forte e auto-suficiente. A merda que dessa vez era verdade. Ela disse para eu não me apaixonar, para eu ir embora, mas cada vez que ela falava isso eu chegava mais perto dela.

Também assumiu que era egoísta, que uma vez ela avisa, a outra ela ligaria o foda-se e deixaria eu quebrar a cara. E foi ai que eu me ferrei mais ainda, porque ela parou de lutar contra e deixou rolar, deixou até o momento que eu não pude mais controlar minha paixão, que minha vida sem ela parecia um desperdício de tempo, como tomar um sorvete do Mac e não comer a casquinha.

Já falei do sorriso dela? Pois é, aquele sorriso era de paralisar, conhece aquele sorriso largo, bonito, com dentes brancos, e lábios carnudos? Daquele que só em uma olhada você já tá sorrindo junto? Era esse mesmo e ainda melhor, porque sempre vinha junto com uma gargalhada, daquelas grossas e altas, mas femininas, daquelas de criança de 10 anos que descobriu algum palavrão novo, aquele típico riso animado.

E ela ficava irritada quando eu falava que tava completamente apaixonado por ela, quando chegava assim de mancinho, abraçando e a beijando, ela dava alguns passos para trás e falava para eu me acalmar, me controlar. O mais bizarro era escutar a palavra "controle" de uma pessoa que fazia tudo por instinto!

Se Raul Seixas estivesse vivo, ele a chamaria de "metamorfose ambulante", porque ao mesmo tempo que ela ria, ela brigava, ao mesmo tempo que ela queria distancia, ela vinha atrás de mim, me abraçando e pedindo para fazer amor. Ao mesmo tempo que ela queria estar por cima, ela pedia para ficar por baixo, queria ser o controle e o descontrole.

E ela queria o mundo, "Com calda de chocolate e uma cereja em cima". Falava que queria carinho, deitava de conchinha, pedia beijos no pescoço, cafuné nos cabelos - que mudavam de cor de acordo com o humor dela, mas de repente ela pulava fora, saída do meu lado e mandava eu embora.

E um dia ela pulou de vez, e só deixou um papel em branco, enrolado, com um cordãozinho envolta dele, daqueles de couro bem velho, com somente um símbolo, a única coisa que ela não tirava nem trocava, era algo como um símbolo antigo que ela nunca me explicou o significado, só falava que era dali que ela tinha saído e dali que um dia ela ia voltar.

Só sei que ela foi, e agora eu não achava graça, nem no antes nem no depois. Não é fácil de acostumar com o normal quando você viveu um tempo com o anormal. Vai ver que ela nem era anormal, somente diferente, somente perfeita. Ainda mais perfeita para mim.