segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O abraço silencioso

Eu a abraçava carinhosamente, deixando-a aninhada em meu corpo. Seu calor se tornava parte de mim, meu calor ficava próximo de seu coração enquanto ela segurava minhas mãos, deixando nossos dedos entrelaçados, acariciando-me como podia. Sua respiração era suave, como se ela estivesse quase dormindo, talvez estivesse, pois seus olhos estavam fechados e ela se esfregava em mim como se fosse um gato, ronronando baixinho, num momento pré-sono.

A cama era pequena, mas nossos corpos cabiam perfeitamente, como se aquilo tivesse sido construído para nós dois. Sua respiração só mudava quando eu decidia arriscar um beijo em seu pescoço, sentia nesse momento seu coração batendo mais rápido. Isso me perturbava.

"O que você está fazendo?", seu sussurro era tão baixo e tão rouco pelo longo período que estávamos sem nos falar que a vibração fez meu corpo mexer.

"Nada". Respondi ao pé do ouvido, pegando um dos meus braços, o que estava lhe servindo como travesseiro e ajeitando seus cabelos para trás. "Por que seu coração bate tão rápido quando lhe beijo?", questionei enquanto deixava meus dedos entrarem em seu cabelo. Ela suspirou, abrindo levemente os olhos e me olhando de canto.

"Não posso dizer... Prometi", ela respirou fundo, pensei que neste exato momento ela ia se levantar e ir embora. Não. Ela se aninhou mais em mim e pegou mais firme em minha mão junto a dela, dando um beijo suave nas costas de minha mão, sorri e mordi sua orelha. "Do que você tem medo?", perguntei.

Ela hesitou durante um tempo, virou-se para mim e disse "Não tenho medo". Deixei que minha mão escorregasse pelo seu rosto e me aproximei mais, meus lábios tocaram seus lábios, o gosto era doce, mas meus lábios estavam úmidos e os dela estavam secos, a ponto de mostrar ansiedade. "Não faça isso", a voz dela se elevou agora e ela me distanciou, "assim vou ser obrigada a sair daqui", ela torceu o nariz se sentando na cama, levantei e peguei em suas mãos.

"Por que?". Ela imediatamente tirou suas mãos das minhas e cobriu seu rosto, parecia mais perturbada que eu. Talvez nossos sentimentos fossem de fato muito confusos. Talvez meu amor fosse passageiro e talvez o medo fosse o da entrega. Talvez sua fuga fosse um modo de proteção. Ou então talvez, somente talvez, nós fossemos cegos demais. O suficiente para não nos deixarmos entregar, ou ver que nós realmente estamos certos e que os diversos abraços à meia noite, sem nos tocarmos totalmente, fossem nada além de uma mensagem do que deveríamos fazer.

"O que aconteceria depois disso?", ela destampou o rosto, apoiando-o em uma mão, "como seria o dia seguinte? Como acordaríamos?". Eu pensava em tantas frases para lhe responder, tantas coisas que poderiam ser mentira daqui em diante, mesmo que para mim, neste exato momento, eu sentisse que tudo que falaria seria somente a pura verdade.

"Se eu descobrir que te amo, se descobrir que não posso mais passar um dia longe de você e se você ir embora, se você não retribuir, me sentirei tão destruída que a reconstrução seria quase impossível. A sutil ideia de que teria que recolher mais uma vez esses cacos me mata".

"Eu não te entendo... Ou melhor, não entendo o que devemos fazer. Se devo lhe abraçar, roubar-lhe um beijo e lhe pedir para ficar, ou se devo lhe permitir a saída".

"Jogamos um jogo perigoso, não é mesmo?". Ela sorriu triste quando me disse isso, ajeitou seus cabelos e os prendeu em um rabo de cavalo frouxo e se levantou, colocou os sapatos e foi se distanciando.

"Como vamos saber se não tentar?", segurei seu braço, tentando fazê-la voltar.

"E como vamos nos recuperar caso nossa tentativa falhe?".

Essa foi sua última frase antes de sair pela porta. Fiquei observando a madeira, escutando diversas vezes o som da outra porta fechando, o som do elevador subindo, os passos dela entrando e o elevador descendo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Ministério da Saúde adverte... (Ângelo Volpi)

Navegar na web pode ser prejudicial à sua saúde e pode causar algumas novas doenças, cujas características estão relatadas abaixo, e também outras que são bem conhecidas...

Hipocondria digital ou "cybercondrisse".
Foram constatados vários casos de pessoas que estão se automedicando e abusando de remédios, após consultarem sites de busca. Isso sem falar no já conhecido distúrbio da ansiedade causado pelo excesso de informações, que pode desencadear a síndrome do pânico, entre outras. Era só o que faltava, o Dr. Google substituindo os doutores de carne e osso. E esses, por sua vez, também devem estar sofrendo de ansiedade e raiva, porque com pacientes tão bem informados eles ficam metade da consulta ouvindo-os discorrerem sobre seu mal e tudo o que leram na web. E outra metade tentando convencer o dito-cujo de que ele sabe mais do que o próprio!

Vício wébico ou transtorno de dependência da Internet.
Caracterizado por angústia quando em lugar onde não existe possibilidade de acesso à web, e obsessão na busca por atividades que são desenvolvidas on-line. E ainda, perda de noção do tempo quando conectado e lapsos de relacionamento fora da Internet.
Pesquisando sobre a palavra mais buscada na web descobre-se que é "sexo"! Então será que podemos concluir que uma boa parte dessa turma é também viciada "naquilo"?
Na China o governo usou choque em 3 mil jovens que tinham obsessão por internet, mas em 2009 a medida foi proibida, visto que o governo admitiu não ser uma opção realmente efetiva...
Não costumava a localidade onde os choques eram aplicados...

Photoshopia.
Caracteriza-se pela alteração de imagem real por uma fantasiosa. Na Europa estão discutindo leis que obriguem os meios de comunicação a avisar quando a fotos foi manipulada. Tudo começou porque monsieur Sarkozy queria ficar mais bonito que Carla Bruni e mandou encolher sua barriga na foto.
A justificativa para a lei é que as fotos mostram um padrão inatingível de beleza causando "infelicidade" no povo, em geral, e na manequins, em especial (já como severas tendências à anorexia e bulimia).
Aqui em nossas plagas a Hortência usou e abusou e até aí tudo bem. Mas Juliana Paes precisava? Bom, se até a Angelina é usuária contumaz! O Ministério da Saúde adverte: Photoshop faz mal à saúde (do próximo) podendo causar depressão e distúrbios psicológicos gravíssimos...

Crônica de Ângelo Volpi
Document Management Magazine
(edição de Novembro 10)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Estação

Nossos olhos se cruzaram somente duas vezes. A primeira quando o observei descendo as escadas da estação, a caminho daquele trem movimentado, a segunda quando ele me observou saindo deste mesmo trem a caminho de minha casa.

Sentei-me em um dos bancos da estação e peguei um livro de minha bolsa, teria que esperar o tempo passar até que o relógio marcasse seis horas da tarde. Eu não o esperava ali, não esperava que ele descesse no mesmo momento e se sentasse ao meu lado. O olhei brevemente, agora pela terceira vez e vi sua aliança no anelar esquerdo.

Talvez fosse somente um anel, tentei me convencer. De fato não era, estava ali sozinha com alguém que esperava sua esposa. Imaginei-me nesta situação, olhei para minha mão esquerda visualizando um anel dourado em meu dedo anelar. Fiquei a observar minha mão por minutos sem saber o motivo exato para tal.

Eu já estava me aproximando dos trinta anos e nada tinha encontrado. Meus poucos romances terminaram em tragédias shakespearianas, o que fez minha ideia de amor se transformar, pouco a pouco, em puro platonismo, algo que eu jamais alcançaria e que, talvez, devesse simplesmente me contentar com um relacionamento que me proporcionasse estabilidade e compreensão de ambos os lados. Se isso se mostrasse mais fácil de adquirir, provavelmente não estaria por trás de minhas pastas de trabalho, esperando o carro de minha empresa me buscar nesta estação.

Quando simplesmente parei de contemplar minha mão nua, voltei a olhá-lo e minha mente começou a criar pequenas fantasias. Como deveria ser a sua mulher? Era loira, morena, ruiva? Talvez fosse alta porque definitivamente ele era um homem alto, mas talvez por esse mesmo motivo ela fosse baixa, porque é fato que muitas pessoas altas procuram em seus parceiros este oposto. Talvez fosse uma dona de casa, daquelas com um avental sempre envolta de sua cintura e um sorriso familiar estampado no rosto. Talvez fosse uma mulher de negócios, assim como eu.

Quando ele chegava cansado em casa, ela lhe buscava com um copo de uísque, exatamente de sua preferência, com um charuto e um beijo adocicado, informando-lhe que em breve servirá o jantar. As crianças, provavelmente três, sairiam correndo atrapalhadas, esbarrando em tudo e rindo deliciosamente para abraçar as pernas do pai. A mais nova lhe pediria colo e no momento que ele se sentasse em sua poltrona, os outros dois sentariam em suas coxas e lhe pediriam para que lhes contassem histórias sobre a vida adulta.

Ou então ele não tivesse filhos. Sua mulher o buscava do trabalho todos os dias, afinal ela era a dona daquele carro, eles mal se falavam quando estavam a caminho de casa, entravam e pediam comida tailandesa pelo telefone. Ele se banhava enquanto conta as histórias do trabalho que não agradam a sua mulher que simplesmente age entediada com todo o monólogo que, para ele, parecia empolgante.

Quando notei, ele agora me observava intrigado. Não era de se estranhar, afinal eu estava o encarando durante tanto tempo que provavelmente ele pensasse que havia algo errado por ali. Abaixei imediatamente minha cabeça e desviei meus olhos para o chão. Tentei voltar a ler, mas as linhas pareciam se misturar, minha concentração não estava mais ali. Estava perdida em minha imaginação. Eu creio que provavelmente estava tentando imaginar como seria minha própria vida caso fosse casada, o que me tornava ainda mais excêntrica do que provavelmente era. Quando voltei a levantar minha cabeça, pronta para me desculpar por esse momento totalmente rude e deselegante de minha parte, não o encontrei mais.

Dentro de minha mente perdi o sentido de vida real, estava tanto em minha imaginações e fantasias que devo ter perdido o momento que ele avistou o carro que iria buscá-lo. Olhei para frente e me surpreendi. Lá estava o carro que ia buscá-lo, mas não era sua mulher que estava dirigindo, era simplesmente um motorista qualquer, assim como o que provavelmente iria me buscar.

Fechei meu livro, era inútil tentar retornar aquela leitura, olhei para o relógio em meu pulso, ainda teria mais trinta minutos para esperar. Trinta minutos dentro de minha mente, ou devo dizer dentro da mente do próximo que se juntar a mim neste banco? Não sei ao certo, mas penso que tenho tempo para decifrar este pequeno enigma.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Efêmero e o Perene

A máquina de escrever estava parada, o verde que a cobria se transformara em preto e cinza pelo pó que se espalhava pelas teclas e suas partes de plástico. A tinta já estava seca e as fotografias jogadas encima da escrivaninha mal habitada. O livro completo tinha sido esquecido, guardado em uma pasta azul grossa, com sua antiga caneta tinteiro ainda aberta pelas anotações e rabiscos de páginas.

Ele estava a sete palmos, longe de sua mulher que estava a outros sete palmos em outro cemitério distante de lá. A biblioteca lotada de livros de filosofia, matemática, arte e política comunista, não existia mais e os livros foram doados e jogados fora, somente alguns foram guardados. Toda uma vida fora desperdiçada e esquecida. Lembrada em seu aniversário de vida ou de morte.

O piano que durante décadas fora tocado diariamente, havia sido vendido. A família não queria guardar recordações, ou achavam que o dinheiro que sessenta anos de inteligência podiam oferecer era muito mais importante que descobrir como essa inteligência fora adquirida.

O tempo havia passado, a morte já estava ao seu lado por quase quinze anos. As lembranças de uma vida se tornara, mais uma vez, efêmeras. Esquecidas em fotografias, esquecidas em outras vidas efêmeras. E talvez a necessidade de buscar conhecimento não fosse tão importante quanto se mostra ser, pois esse conhecimento será esquecido em livros guardados dentro de pastas azuis e anotações feitas por canecas tinteiro velhas.

Há uma tentativa eterna de transformar lembranças para que as façam serem presentes em mentes futuras. Procriação não é somente um modo de manter seu sangue, é principalmente um modo de manter seu passado vivo, seu orgulho intacto, imaginar que seus livros escritos, árvores plantadas e fotografias tiradas não se tornem mais parte de uma vida passageira.

Mas, por infelicidade do destino, não se pode contar que suas procriações realmente desejem manter sua existência presente e viva, talvez eles simplesmente o queiram a sete palmos abaixo da terra, ou transformado em pó que será jogado em plantas, rios, lagos ou somente guardados encima de uma lareira.

Você se torna descartável, se torna uma lembrança distante ou uma curiosidade juvenil de sua neta, esta que sobe encima de uma cadeira bamba para alcançar agora a caixa de sua máquina de escrever verde musgo. Esta que abre a pasta azul e encontra seu livro intocado, procura seus poucos livros guardados por sua nora que lhe quis presente e não a sete palmos. Sua neta busca notícias suas, busca sorrisos em fotografias velhas, busca seus artigos filosóficos, teorias shakespearianas, seus motivos comunistas.

O que mais lhe espanta, dentro de sua vida efêmera, é que uma garota que mal lhe conheceu antes dos sete palmos, procurasse com tanto desejo em transformar sua vida em algo perene. Talvez ela espere que sua própria vida não tenha o destino que a sua lhe trouxe. Talvez pelos seus atos ela consiga fazer que suas procriações a torne também em eterna. Ou então ela simplesmente possui uma curiosidade peculiar sobre sua vida e suas intelectualidades perdidas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Livro aberto

Essa história de Halloween brasileiro não existe, é simplesmente americanismo. Mas às vezes parece que a bruxaria acontece além dos filmes do Freddy Krueger que vimos à meia noite no SBT. Dia 31 de Outubro de 2009 significou muito mais para mim do que qualquer outro dia das bruxas. Foi o dia exato que descobri pela minha mãe que tinha contraído HPV. Lembro ainda que era um sábado e eu estava me preparando para sair com meu namorado da época para ver umas apresentações especiais de dia das bruxas na Casa das Rosas.

Por pouco não desisti dessa ideia, só não desisti porque minha própria mãe disse que não tinha mais motivo para se desesperar, o problema já tinha sido feito e não adiantava nada ficar se lamentando em casa sozinha.

HPV é o tipo de doença sexualmente transmissível que dá susto. O nome lembra muito o temido HIV e sempre que você conta para alguém que tem HPV, a pessoa em questão dá um pulo pra trás pensando que logo mais vai pegar só por respirar o mesmo ar que você. Confesso que quando minha mãe disse “você tem HPV” eu na hora escutei “HIV” e quase desmaiei na frente dela.

HPV é bem mais simples, mas também não tem cura total. É o tipo de doença que você vai ter que lembrar pro resto da vida, qualquer gripe mais forte, qualquer coisa que faça sua imunidade baixar, pronto. Lá está ela de novo te tirando dois meses para tratamento. HPV também não é por sangue, por isso que, depois de muito tempo pra me acostumar com o fato, não tenho dificuldade nenhuma de falar que tenho. É contato e, é claro, só se contrai caso faça sexo sem camisinha.

Agora o que fez uma mulher como eu, de classe média alta, estudante de jornalismo, estagiária, com boa educação, transar sem camisinha? Eu fico pensando nisso até hoje e não consigo arranjar uma explicação boa o suficiente. O que posso falar é que quando contrai HPV, tinha somente 16 anos de idade, com meu segundo namorado e foi a primeira vez que não tomei cuidado com essas coisas.

E ai que você pensa que uma vez sendo descuidada pode ferrar muito mais do que você pensa. Eu sei que agora vocês estão fazendo as contas, disse que contrai com 16 anos, mas só descobri com 19. A HPV pode ficar lá na dela durante anos sem aparecer em nenhum exame e quando você fica com resistência baixa, anos depois, ela decide aparecer.

A primeira coisa que fiz quando descobri a doença foi ligar para meu recente namorado, ele veio correndo pra minha casa, afinal eu estava chorando sem parar não sabendo como seriam as coisas a partir daí. Ainda não tinha tido nenhuma relação sexual com ele e, sinceramente, estava ansiosa pra isso e agora só conseguia pensar naquela frase de bêbado envolvendo com o lado sexual: “nunca mais transo”. Depois ele me perguntou se queria que ele ligasse para meu ex-namorado para avisar sobre a doença.

Não, isso era algo que eu queria fazer. Liguei e expliquei tudo, não tinha motivo para culpá-lo, como todos meus amigos queriam que eu fizesse, afinal a decisão de fazer sexo sem responsabilidade não foi só de um de nós, foi de ambos. Se eu não quisesse na época, simplesmente tinha parado e falado pra fazermos em outro dia, quando tivéssemos proteção.
Na outra semana eu já estava com a minha ginecologista resolvendo esse problema. Tive sorte de descobrir logo, a HPV ainda estava no começo e o tratamento não seria tão complexo. Ela até chegou a me perguntar se eu queria esperar para ver se ela se curava sozinha, mas ai era o risco de ela ficar mais grave e se tornar em um câncer. Descobri também que 70% das mulheres sexualmente ativas contraem HPV, mas claro que isso não me deixou nada contente, preferia ser muito mais os 30% que não tem.

Sobre o tratamento? Era um pouco longo. Eu ia lá uma semana, ficava naquela posição desagradável, ela colocava ácido onde tinha as verrugas da HPV, no meu caso no colo do útero, por isso não doía nada, depois ela colocava uma pomada para cicatrizar, ficava uma semana passando-a e uma semana deixando a pomada sair de vez do meu corpo. Depois eu voltava lá e fazia a mesma coisa. Isso durou 2 meses, lembro que minha última consulta foi duas semanas antes do fim do ano.

Sobre as consequências da HPV, ela me ajudou um pouco. No começo eu tinha perdido totalmente a libido, para a infelicidade do meu namorado na época, não tinha vontade de fazer nada enquanto ainda estivesse em tratamento. E nem podia. Pelo menos eu tinha essa desculpa para dar a ele.

Mas ela realmente me ajudou, fiquei paranoica sobre sexo e por isso, hoje em dia, você pode encontrar uma camisinha em cada bolsa minha. Na que está aqui do lado não tem só uma, tem umas três. E também notei que eu podia me libertar um pouco de algumas amarras da sociedade. Hoje em dia não tenho mais vergonha de falar do que eu tenho, tanto que estou me expondo aqui para contar essa história. Hoje em dia minha libido voltou e eu me sinto livre para fazer qualquer coisa, só que com uma responsabilidade bem maior. A responsabilidade de uma mulher de classe média alta, estudante de jornalismo, estagiária, com boa educação.

O mais irônico é que no dia 31 de Outubro desse ano peguei meus exames para ver a quantas estava a HPV. Bom, ela está na dela, quietinha e se depender de mim, ela não volta tão cedo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Nos Limites do Bullying

Eu olhei para baixo e meu medo de altura não apareceu. A água parecia agitada, talvez o impacto do meu corpo fosse forte o suficiente para que eu não sofresse muito com a queda. Meus olhos ardiam e meu coração parecia que ia sair pela boca. Queria entender porque fizeram isso comigo, queria entender porque não posso ser normal.

Coloquei uma perna para frente, pulando o muro que me separava da ponte, meu corpo começou a tremer, senti uma leve vertigem. Segurei-me por um momento nas grades e me abaixei, olhei para água, ela tinha um cheiro tão fétido que me dava náuseas, conseguia ver coisas espalhadas naquela água, sacos plásticos, restos de alimentos e animais em decomposição.

Ontem minha mãe disse que minha homossexualidade era somente um modo de torturá-la e que eu devia realmente odiá-la para fazer isso. Ela acha que eu escolhi essa vida, como se eu tivesse pensado que ser contra os parâmetros da sociedade fosse divertido, como se eu gostasse de ser chamado de menina e de ser espancado pelos meus colegas de escola. Se eu pudesse escolher preferia ser aqueles marmanjos que me batiam quando eu era criança. Eles recebiam broncas e suspensões, mas depois seus pais davam tapinhas nos ombros dizendo como eles eram machos por ter espancado uma “bichinha”.

Ela me pede filhos todos os dias. Diz que com a minha idade meu pai já era o homem que é hoje. Já cheguei a tentar mudar isso, já cheguei a tentar virar uma pessoa que alguém pode considerar normal. Namorei mulheres, mas sempre acabava ferido, elas esperavam mais de mim do que eu poderia oferecer. Fico pensando se caso eu desse um filho para minha mãe ela seria feliz, caso eu fosse o homem que ela desejou ela pararia de me excluir do resto da família e fazer com que meus irmãos sigam o mesmo caminho.

Tenho dois irmãos. O mais velho mal olha para minha cara, diz para a mulher que eu tenho manias estranhas. "Manias". Meu irmão mais novo escutou tudo que lhe foi dito e me detesta porque quando estava no colegial ele também era espancado. "Irmão do boiola". Excluíram-no durante tanto tempo e todos diziam que era culpa minha. Hoje em dia ele é homofóbico, daqueles que se encontra um homossexual faz coisas realmente erradas. Eu sei que é culpa minha e talvez eu mereça isso.

E não. Esse não foi o meu único problema. Definitivamente foi o mais grave e o que me faz sofrer até hoje. Mas não, eu era ainda inteligente de mais e, supostamente, feio de mais para conviver em grupo. Queria explicar como as coisas funcionam para pessoas que são deixadas de fora. Quando não se tem beleza, sexualidade ou bom humor para se abraçar, nós nos abraçamos em estudos.

Como brincar sozinho era tão rotineiro para mim, ler se tornou um dos meus maiores prazeres. Eu era ainda pré-adolescente quando me enfiava no meu quarto e pegava a maioria dos livros da biblioteca de meu colégio. Lia vários e de todos os autores. Amava assuntos que ninguém nunca se interessou e me focava em meu estudo como se fosse a única coisa que realmente me importasse. O que, de fato, não era mentira.

Isso foi algo que eu descobri logo. As pessoas temem as que são mais esforçadas que elas, é como se fosse um xingamento receber uma nota alta ou um prêmio. Aí te julgam. E aí te excluem. E sabe o que me era mais frustrante? Era porque nem meus professores daquele tempo me protegiam. Eu não sabia mais para onde correr! Minha família me excluía, meus colegas me excluíam e até meus professores me excluíam. Tornei em minha adolescência um homem agressivo, afinal se ninguém me defendia, tinha que me defender de meus próprios modos. E mudei, não era mais feio, mas meu psicológico já tinha sido mudado o suficiente para não me achar bom.

A pressão se tornava cada vez maior e agora eu trocava de colégio toda a hora porque me defendia das agressões físicas e verbais. Era sempre o culpado. Uma vez três garotos me pegaram na classe desprevenido e me jogaram contra a parede. Socaram onde conseguiam encontrar, chutavam minha costela e me ofendiam de todos os modos possíveis. Não conseguia me defender e quando consegui me levantar e agredi-los logo foram embora e avisaram a coordenação do colégio. Mesmo com meu corpo todo estourado acreditaram neles e me expulsaram. Minha mãe os defendeu e disse que eu era frouxo de mais para viver ali.

Olhei novamente para o abismo de água embaixo de mim. Meus olhos agora ardiam com as lágrimas e não mais pelo odor. Essa é a segunda vez que tento suicídio. A primeira foi com remédios, mas meu namorado me encontrou antes que eu conseguisse algo. Fui internado e depois me colocaram com uma série de psicólogos e psiquiatras. Desta vez eu espero que seja definitivo.

Espero que ele não sofra. Meu companheiro é um dos poucos que sempre me apoiou. Ele é um homem forte, já vivido e que diz nunca ter se importado com o preconceito que recebeu. Mas já o vi lamentar quando o demitiram do trabalho pela sexualidade dele. Ele sempre se recupera, ele é mais resistente que eu.
Debrucei meu corpo para frente, me segurando em somente uma mão, é só soltar os dedos que eu caio. Só isso. Em um movimento acabo com essa dor que me corrói diariamente.

Hoje meus colegas de trabalho colocaram um vídeo na internet e jogaram em um site de relacionamento. Não sei como conseguiram me filmar naquele estado, eu nunca gostei de aparecer em situações que considero incrivelmente pessoais. Não sei quem os ajudou, mas agora todos do meu trabalho sabem o que eu faço em meu tempo livre. Sabem com os mínimos detalhes e todos estão debochando de mim agora mesmo.

Estou fazendo isso porque não suporto mais me olhar no espelho. Sinto-me sujo e me considero repulsivo. Não sei mais o que é amar a si mesmo, pois a cada dia alguém consegue destruir mais esse sentimento. Não consigo mais confiar, talvez tenha sido meu próprio companheiro que tenha feito isso comigo. Não sei. Agora não me importo mais. Vou soltar um dedo de cada vez até que não aguente mais o peso do meu corpo. Talvez em outro lugar eu me sinta livre. É o que eu espero.

Dedicado a Juliana Lindo. Uma mulher que superou e supera todos os preconceitos.

domingo, 3 de outubro de 2010

A Náusea Sartreana

Há temos que não escrevo realmente em um papel. Amassado, com manchas recentes de café, mas um papel mesmo assim. Às vezes penso que perdi essa capacidade. A de deixar minha mente fluir vagarosamente em uma folha, arranhada por uma caneta qualquer. Minha mente anda poluída e rápida de mais, não tenho mais paciência de uma criação lenta como a escrita.

Faz tão frio que minha mão não corresponde aos chamados e me canso rapidamente. Penso em acender um cigarro, mas se fizesse, não conseguiria escrever, preciso segurar o papel com força enquanto o faço.

Vejo de dez em dez minutos um homem passando, correndo com pouca roupa. Sinto um frio inimaginável só de olhá-lo, talvez o exercício físico não o permita sentir a baixa temperatura, de fato o meu tipo de exercício, o exercício mental, não tem essa capacidade.

A fonte que sempre costumo observar quando paro para ler nesta praça, começa a me irritar, o barulho da água correndo é repetitivo. Hoje colocaram livros na fonte, livros abertos. Supostamente é algum tipo de exposição pós-moderna que eu não vou e nem pretendo entender. Considero, sim, um desperdício literário. Cultura molhada como a minha folha molhada de café.