quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Vila

Ela retirou um dos quatro casacos que usava, ajeitou os cabelos finos para trás da orelha e se desculpou pelo mau jeito que a idade lhe trouxe. Ofereceu uma xícara de café adocicado e se sentou na cadeira da cozinha. Um breve sorriso, uma breve risada e um longo diálogo.

A Vila sem portões e sem cadeados, o piso de pedra com restos de terra e plantas pisadas. O banho frio e a louça suja lavada em uma grande bacia. Eram tantas línguas e sem desculpa de não entender. Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Alemanha.

Seu sotaque era português. E sua simpatia, Brasileira. Ela ofereceu um pedaço de bolo de maracujá para acompanhar o café e um licor para que tudo descesse bem. Tirou mais um casaco e comentou sobre o filho. Nos tempos de moço, um coroinha religioso. Na Vila costumava jogar futebol com o primo da amiga dela. Um velho espanhol reclamava dos barulhos e das bolas chutadas acidentalmente em sua porta.

Quando não havia televisão todos se juntavam para escutar "Varguinhas" no rádio, sem reclamar da Hora do Brasil. Quando havia televisão, todos trepavam no murinho para ver a antiga seleção brasileira jogando.

Humildes foram todos, sem geladeira e só com um fogão de lenha. A comida durava só dois dias, mas custava pouco e isso não era motivo para discórdia. A marmita custava um cruzeiro e era servida em uma tigela de metal funda, o que garantia o almoço e a janta.

A senhora umedeceu os lábios secos e sorriu suavemente, voltou a se levantar e mais uma vez se desculpou pela idade avançada. Contou sem tristezas que recentemente fez uma cirurgia nos olhos e por isso eles ficavam constantemente secos e com uma visão turva. Pegou em sua bolsa os colírios e se virou de costas para aplicá-los. Quando se virou ofereceu mais uma vez o cafezinho, talvez dessa vez com um pouco de leite morno.

A Vila só tinha um banheiro para 15 famílias, o jornal O Cruzeiro servia para limpar, porque para ler, não adiantava de nada, sendo que ninguém por lá sabia ler nem o próprio nome. As pequenas casas só ofereciam quarto e cozinha. Cozinha, como ela mesmo diz, praticamente só a mesa de jantar.

Agora a vida é mais fácil, a geladeira existe, o fogão não é mais a lenha e o banho é de água quente. Mas a graça acabou, a tranca precisa ser verificada todos os dias, porque ladrão não escolhe por dinheiro, e sim pela facilidade que pode ser o assalto. A violência é grande e o preço é maior. Ela pagava só 100 cruzeiros por mês, agora pagaria 300 reais, se ainda morasse na velha Vila.

Nem tem como, a Vila virou apartamento. Tudo um dia tem que se render ao capitalismo e com a vila não foi diferente. A realidade se desfez e virou cimento, mas o sonho continua em mente. As fotos continuam penduradas na parede e as histórias continuam nas línguas dos moradores da antiga Vila.

Desabafo

Eu queria ter a necessidade de me perdoar pelos erros que cometi. Se pelo menos os visse como erros. Queria lhe dizer que o que lhe disse era mentira e que o que senti era confusão. Mas a confusão se instalaria no mesmo momento que lhe dissesse essas palavras. Queria me perguntar por que te amei, mas a única dúvida que me vem é por que não te amei. Queria lhe dizer que você era doce e gentil. Mas quando descubro suas mentiras sem controle, o doce vira amargo e o gentil vira rude.

Queria me livrar de você, isso com certeza necessito fazer. Queria que você sumisse, que você virasse, realmente, poeira cósmica. Talvez que a nossa amizade nunca tivesse acontecido e que você nunca tivesse se apaixonado por mim do jeito que se apaixonou. Queria ter sido rude com você ter lhe dito desde o começo que eu não lhe queria e que essa paixão que vinha de você e parava em mim, sem retribuição, nunca teria uma continuação. Não queria ter lhe tratado bem, ter lhe ajudado ou ter lhe enganado com meus sentimentos atrapalhados.

Queria que nada disso acontecesse, que nada que digo que quero, realmente conseguisse. Queria, porém, que fossemos normais, que fossemos compreensivos com os erros um do outro, sem necessidade desse ódio e desse rancor mal ajustado que faz minha orelha esquerda queimar. Queria que você parasse de me olhar toda vez que passo por você, com seu olhar analítico, querendo saber o que estou fazendo de minha vida e o que faço no mesmo ambiente em que você se encontra.

Queria não ter mais medo de andar pela rua de mãos dadas a outro homem, pelo simples fato de poder te encontrar pelo caminho e magoar mais uma vez seus sentimentos, sendo que neles, supostamente, não me encontro mais. Queria que você me desse a permissão de vida, que me deixasse seguir meus caminhos, que me deixasse amar outros lábios, que me deixasse abraçar outros corpos, que me deixasse falar com outras bocas.

Queria que você entendesse de uma vez por todas que meu amor por você nunca aconteceu, que a paixão passa e que eu precisava respirar. Queria que você entendesse como você me sufocou, como você me algemou, como você me deixou fraca e perdida. Queria que você entendesse que você não era o que eu procurava e que eu precisava somente ficar sozinha.

Queria, finalmente, que você soubesse que meu relacionamento foi feito por um pedido, por saídas enciumadas, por você alcoolizado e por minha vontade de não querer mais vê-lo desse modo. Eu errei em algumas coisas, mas a principal foi ter feito isso para lhe agradar e pensar que com isso começaria a te amar.

Fui ingênua e por isso eu queria lhe pedir perdão, pelo resto não. Não houve mentiras, a não ser as suas, não ouve traições, a não ser as suas, não ouve paixão, a não ser a sua, não ouve amor, a não ser o seu.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dorian Gray

Relaxa, prometo que não enlouqueci e nem estou em um ataque depressivo! Eu simplesmente fiquei com uma frase em minha cabeça e precisei imediatamente colocar no papel. Talvez seja um pouco perturbador, mas a vida é assim!

Espero que gostem.

Da autora.

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Sentou-se e respirou fundo. O ar gelado ardia sua garganta misturado com a fumaça do cigarro que prejudicava sua respiração. Sua bebida estava intocada. O gelo trincava. A escuridão invadia a sala e a sombra de seu retrato espantava sua mente.

Minutos a observando sem sair do lugar e cada vez que a olhava, as imagem pareciam sair do espaço, andar até sua cadeira e morder a barra de sua calça. Os olhos desviavam o olhar dos próprios olhos retratados. A visão imaginada o cobria de elementos asquerosos e parecia rasgar sua pele.

O irlandês não podia estar mais certo. Aquela alma que lhe sugava e lhe mostrava todas as faces sem medo de lhe ferir. Aquele corpo imperfeito que lhe dominava e entrava em seu interior, domando suas ações cada vez mais incoerentes.

Há dias não se banhava e ele tinha a leve impressão que até os animais mais sujos tinham nojo de sua nova pessoa. As baratas pareciam fugir de sua presença e os ratos evitavam roer seus sapatos com medo de sua podridão.

Medo era uma palavra fria. Real. Seu corpo tremia pelo medo e pelo sofrimento incompreendido. Era tudo culpa daquele retrato e isso ele não podia negar. Aquela imagem real de seu rosto deformado e imperfeito. Ou perfeito. Perfeito até mais do que se é necessário.

Retrato. Retratar-se. Tratar. O tratamento que não havia cura, só marcas sangrentas pelo caminho. Não havia chão onde pisar e cada passo que ele tentava dar, se sentia sugado pelo chão grudento de um líquido pastoso já bem conhecido por sua pessoa. Esse liquido escorria daquela imagem, como ferimentos incapacitados de serem sarados.

E a faca continuava lá. Estacada, presa e já enferrujada com o tempo. Rasgou o peito de si mesmo, rasgou o coração sem palpitações. Rasgou a alma sem mais caminho. Só o pecado que lhe compreendia.

Se havia sentimentos? Esses ainda existiam. Sentimentos eram confundidos com coisas poderosas e positivas. Mas os sentimentos que pareciam prevalecer não eram positivos, mesmo que poderosos, infinitamente poderosos.

O gelo continuava trincando, mas talvez fosse somente seus dentes. Rachados pelo ódio. O mundo são todos e todos são ele. Ele sentia o ódio por todos. O ódio pela destruição e pela falta dela.

Covardia parecia ser a primeira palavra que subia em seu cérebro quando se indagava sobre a destruição. Aquilo era um castigo para uma pessoa que não acreditava em castigos divinos. Era aquele ser incompreendido que lhe derramava sentimentos. Um pecado para um ateu. Tapas em na face para um cético.

Sua única necessidade fora negada. Por falta de merecimento. Ele usou de sua covardia e de sua coragem para destruir o que tinha construído. Aquilo lhe foi negado. Era obrigado agora a viver uma vida que não se pode oferecer essa palavra. Vida não é vida quando não se quer vivê-la. Vida não é vida quando é negado perdê-la.

A faca enferrujada que estava cravada no peito do retrato, se afundava em seu próprio corpo e não poderia nunca ser retirada. O que lhe era considerado de mais asqueroso, era somente ele. Ele devia aceitar, aceitar o que lhe foi dado, porque tudo foi merecido, aceitar o que lhe foi negado, porque tudo foi perdido. Mas o aceitar parecia longe de sua realidade. Essa não era mais existente.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Televisão

Ele zapeava a televisão, eram 200 canais e nada útil para se ver em uma tarde de segunda-feira. The History Channel, uma história sobre homens de preto, óvnis que matam pessoas. conspiração e fim do mundo. Tudo que ele queria era o fim daquele dia, só isso, o mundo podia facilmente esperar. Ele queria aquela máquina que faz tudo, qual era o nome dela mesmo? Juicer alguma coisa. Ela devia ser útil, rala, corta, espreme, bate. Aquele homem que falava na televisão tinha uma voz engraçada. Ele queria ter pagado o Playboy TV, ou aquele outro canal de luta. Talvez assim pelo menos ele se divertia de algum modo.

Sua televisão parou no TV Coréia. Quem ia ver esse canal? Claro, e o canal nem ao menos funcionava. E quem vai pagar a Net para ver a TV Coréia? Aquilo não fazia sentido. "Por favor, quero a Playboy TV, TV Combate e o TV Coréia". Tinha outro canal que parecia que eles falavam alemão, ou holandês, ou qualquer língua que ele não fazia ideia do que falavam. Era um homem careca, de óculos e terno e outro que parecia o doutor que falava sobre sexo no GNT. Não, e não era a velhinha tarada que passava de madrugada na GNT. Sue. Ela era bem tarada.

Tinha uma mulher bonita apresentando culinária no canal italiano. Mas ele passou rapidamente, já era hora do almoço e ele não estava com saco de pegar algo para comer. No SciFi Channel passava Star Trek, a série tinha sua idade e ainda passava. Ele sempre se perguntou quem assistia. Todo mundo já deve ter visto todos os episódios disso e aquilo era muito chato. Muito chato. Ele se arrependeu de novo de não ter comprado o canal Playboy.

Se apagasse a televisão, teria que trabalhar. Preferia o tédio da televisão, definitivamente. Pensou novamente naquele juicer. O programa dizia que cortava tudo. Devia ser útil. Era caro e ele não ia comprar frutas e legumes para experimentar o produto. Ele nem ao menos sabia cozinhar. A fome bateu de novo. O telefone estava longe e a preguiça era maior. Dane-se.

Talvez ele devesse fazer um regime. Olhou para sua barriga dobrada, pança. Bateu um dedo nela. Era engraçado. Ela parecia gelatina. Bloun. Mexia. Era a cerveja. Talvez ele devesse parar de beber cerveja. A cerveja tinha acabado, ele teria que sair para comprar. O miojo também e o feijão pré-pronto também.

Regime era uma boa opção. Dizem que se você para de comer, você continua engordando. Era como se seu corpo encarasse aquilo como uma mensagem de falta de alimento e lhe desse a gordura guardada para você ficar mais forte. Ele tinha estudado isso uma vez, mas não era assim. Se parar de comer engordasse, os caras da Somália seriam tudo gordinhos. Que mente sacana, cara. Eu vou para o inferno. Mas se você é ateu, não tem essa, certo?

Aquele pensamento lhe deu fome de novo. Ele viu a propaganda sobre um produto para filtrar a água da pia. Aquilo o lembrou que ele ainda não tinha tomado banho. Será que ele pegou a conta de gás? Pegar, ele pegou. Pagar é outra história. Ele tinha que comprar cigarro também e isqueiro. O gás do isqueiro acabou. Isqueiros Bic não são mais como antigamente! Acabou em um mês. Antes ele ficava com o mesmo isqueiro durante meses.

Por que todo mundo começa a pensar em mudar a vida em uma segunda-feira? Teoricamente o a semana começava no domingo. Ninguém pensa em mudar a vida no domingo. Domingo é dia nulo. Faustão. Faustão tinha feito uma cirurgia para ficar magro. Se até o Faustão fez isso, talvez ele realmente devesse fazer regime. Será que o Faustão está usando aquelas cintas engraçadas? Aquilo deve feder, o dia inteiro com a mesma cinta, 30ºC na rua. Banha e suor.

A Net saiu do ar. Nem a Globo funciona. Deve estar passando Chaves no SBT. Ele lembrou da matéria sobre o Quico que leu no Estadão essa manhã. Aquele cara tava velho, as bochechas dele estavam parecendo de um cachorro. Por que esses caras nunca sabem a hora de parar? Tudo que ele queria era a aposentadoria e tudo que o Quico fazia era trabalhar. Gente doida.

Na matéria falava de cachorro quente. Algo como cinco reais para um cachorro quente. Muito caro. Mas agora ele pagava. A fome estava apertando. Ele olhou para os pés. Tinha que levantar. vai, coragem, pelo menos até a geladeira, deve ter um macarrão velho do dia anterior com um molho já estragado. Ele se levantou devagar, aquele gemido de saco cheio. Passos curtos, corpo para baixo. Gravidade é um saco, parece que te joga no chão. A barriga fazia aquele barulho engraçado a cada passo.

Ele desligou a TV. Energia era caro. Mais tarde ele ligaria para o canal de compras. Talvez um juicer fosse um incentivo para um regime. Tem aqueles produtos de exercício também. Além disso, ele podia fingir que não deu certo e pedir o dinheiro de volta depois. A banha dele era mais do que a prova de que os produtos não funcionaram. Boa ideia.

domingo, 7 de março de 2010

Psicólogo

Sempre imaginei que encontraria somente um divã. Talvez uma poltrona para ele se sentar, uma pequena mesa com papéis organizados de maneira paranoica, um livro de Freud só para fazer imagem de bom profissional e uma pequena estátua de um homem careca, só o rosto dele, para representar a mente humana.

Mas não foi exatamente assim quando entrei na sala de consulta. O ambiente não era escuro como sempre imaginei, daqueles com só cortinas, bem mal iluminado e com somente a luz de um abajur de luz quase nula no canto da mesa. Na realidade parecia minha sala, clara, com móveis brancos, paredes brancas, janelas grandes e lâmpadas frias, duas poltronas de bom gosto e confortáveis de frente a mesa, atrás dela uma poltrona grande e ainda mais confortável para o psicólogo, afinal ele fica lá o dia inteiro, nada mais justo que um bom lugar para se sentar.

Também nunca pensei em uma psicóloga, assim... Uma mulher, mesmo sabendo que quase todos os cursos de psicologia a predominância é feminina, minha mente sempre imaginou um homem velho, com barba de algodão, óculos meia lua, alto e com mãos com dedos finos e longos. Mas lá estava ela, uma mulher de estatura média, sorriso largo, bonita e cabelos sem um fio branco. Talvez fosse para dar confiança.

Não que eu ache que tenha funcionado.
Isso não significava que aquilo ia ser mais agradável.
Não mesmo...
Nada agradável.

Eu sabia que quando a parte de apresentação terminasse, as coisas iam se complicar, aquela confiança de "finalmente me assumi maluco" ia desaparecer e eu ia entrar em choque, talvez. E foi, quando a primeira pergunta veio eu já não sabia o que tinha que fazer.

Eu nunca entendi essas perguntas que eles insistem em fazer. É óbvio que se soubéssemos responder, não estaríamos ali. E como eles pensam que nossa mente realmente funciona? Acham que temos pensamentos precisos, concretos? Que sabemos o que queremos, que sabemos o que sentimos?

Francamente!

"Como você se sente?". Isso para qualquer pessoa seria normal, você fala em automático um "muito bem", ou só acena a cabeça com um leve sorriso e canto de rosto, retribui a pergunta fingindo fortemente estar interessado, mesmo que na maioria das vezes você não dê a mínima para a resposta do outro.

Mas para um psicólogo é diferente. Você tem que responder de verdade, sem a resposta automática, tem que pensar no que vai falar, se disser um "muito bem", ele vai lhe perguntar por que você está ali, afinal. E ai entra em um papo de como você não sabe mexer com seus sentimentos e tudo vai por água a baixo, você sai de lá mais depressivo do que quando entrou, procura o modo mais fácil de se matar, se joga encima de um carro e não morre. E ai você vai ser obrigado a conviver com aquele cara, no caso aquela mulher, até o resto de sua vida por ser um depressivo suicida.

Mas os psicólogos nunca pensaram como responder a essa pergunta pode ser complicado.

Eles esperam fielmente que nós tenhamos uma resposta curta e precisa. Ninguém nunca realmente imaginou que nossa mente vaga por diversas direções diferentes e que nada é preciso. Para eles isso pouco importa, ou importa muito e eu não faço ideia disso.

De qualquer modo eu congelei com aquela questão, porque sabia que logo após viria as outras. "Por que você se sente assim?". Essa para mim é praticamente uma ironia, uma brincadeira de mau gosto do próprio doutor.

Se eu soubesse não estaria ali.

Foi ai que eu pensei, eu fiquei um tempo calado, para mim foi pouco, mas foi quando eu vi a psicóloga olhar para o relógio impaciente que vi que tava a tempo de mais calado. Eu nem sei o que sinto! Nem sei o porquê disso, e se ela não sabe, aquilo vai mal.

E eu nem queria esperar para que a pergunta "por que você fuma?", ou "por que você bebe?", ou "por que você transa?", viesse a tona. Eu me forcei a sorrir e falei qualquer bobagem que nem eu mesmo entendi, estendi a minha mão e a cumprimentei e disse um "desculpe, pensei que estava na área de dermatologia", ou algo do tipo.

Dei uma leve risada fingindo que realmente me enganei e pedi desculpas por fazê-la perder seu tempo, mas eu tinha uma reunião urgente e não podia me atrasar.

Levantei-me e fui embora com a mesma velocidade que entrei.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sem Título

Sem explicações ou comentários hoje, caros leitores. Só desabafos.

Abraços,

Da Autora.

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Eu voltei para casa em passos largos mas fracos, não sabia se me sentia aliviada, ou se me sentia destruída. A sensação que perdi algo que não queria, mas outra que queria, me deixou um tanto confusa e desanimada. Nunca pensei que voltaria para casa com um trecho de uma letra de Renato Russo, logo eu, que sempre o detestei (nada contra quem gosta, simplesmente não consigo gostar). Aquela velha melodia cantarolada por Cássia Eller, "sem saber, que o pra sempre, sempre acaba".

As pessoas passam a vida inteira esquecendo que o para sempre não existe. É infeliz pensar que tudo acaba, mas é a realidade. Eu não queria um jeito, ele não queria outro. Nossas conversas ainda fluíram tranquilamente, mesmo que o assunto para elas agora fossem tensos. Era um problema de pensamentos não entendidos, ele não me entendia e eu não o entendia, mesmo que forçasse a minha mente a entendê-lo, não sei se ele fez o mesmo.

Eu deveria me sentir aliviada, como se a conversa que queria ter desde o começo, tivesse acontecido, que todas as cartas tivessem sido colocadas encima da mesa e todas as confusões solucionadas.

Eu tive a conversa.
As cartas estavam na mesa.

Mas as confusões não foram solucionadas.

Eu me senti inútil, não conseguiria dar a ele o que ele queria. E mesmo que durante muito tempo ele não reparasse, eu dei tudo que eu podia oferecer para conseguir agradá-lo. Não consegui o que ele mais queria e era tão simples! Ninguém entende realmente como a mente funciona, como os sentimentos são postos, como eles mudam drasticamente de um dia para outro.

Mas eles mudam e não há nada que possamos fazer para tentar recuperar o antigo sentimento que, provavelmente, poderia agradar a ambos.

Eu sempre falei, de um modo mais jovial e divertido, que eu era a imagem da metarmofose ambulante. Mas nunca realmente acreditei nisso até tudo acontecer. Até eu simplesmente não conseguir amá-lo como devia, abraçá-lo como de costume e beijá-lo como antes gostava. Tudo se transformou em pó, em um passado distante. Eu estava lá, mas não era a mesma.

Definitivamente não era a mesma.

Acho que, se Deus realmente existe, Ele deve ser um cara muito sacana e com uma ironia ácida, daquele modo de criança quando gosta de pegar bonequinhos e desmembrá-los só por diversão, sem um motivo próprio. Porque me senti em um jogo irônico, malvado, onde eu não tinha mais escolhas.

Minto. Sim, eu tinha escolhas.

A escolha de me amar e tentar ser feliz e a escolha de amá-lo e ser infeliz. Era como um gosto da derrota, aquele gosto amargo que fica preso na garganta, que não desce nem sobe. Fica preso lá, sem se mexer, cutucando sua garganta de tempos em tempos para te lembrar do fracasso.

"Você não conseguiu", eu podia escutar em minha mente. "Ele te odeia e pensa que você o enganou". Eu podia conviver com isso, pelo menos por um tempo.

Há sinceridade no que digo. Não engano. Não tenho a capacidade de enganar, não a alguém que amo, mesmo que não do modo que lhe foi desejado. Eu chego a ser má pela falta de senso e pela falta de jeito por não enganar. Evito falar o que é falso.

Parece egoísta da minha parte e pode até realmente ser. Não me importo com isso. Já assumi que todos são egoístas, mesmo que não gostem de dizer isso desse jeito, dizem "eu penso em mim", mas para mim tem o mesmo valor. Eu pensei em mim, porque pensar nos outros não me levaria a nada no final. Além de um poço fundo de infelicidade e frustração por não ter feito o que eu queria para mim.

Eu sou jovem e pensar que essas coisas passam em minha mente sendo que nem ao menos cheguei aos 30 - faltam ainda 11 anos para isso acontecer - me deixa visivelmente preocupada. Não quero envelhecer rápido de mais, afinal, tudo acaba e um dia - espero que daqui há, no mínimo, 50 anos - terei olheiras, peitos caídos, boca fina e orelhas enormes. Estarei numa cama, vendo pessoas indo e vindo, vendo outras morrendo. Não terei mais sonhos a seguir, porque não terei como seguir, eu simplesmente vou parar, acabar a metamorfose e ficar. Enquanto ainda não chego aos momentos tensos de minha vida, enquanto ainda posso crer na juventude de meus sonhos, não vou parar. Egoísta, mas infelizmente real.

Pensar no eterno e no para sempre não me leva a nada, somente a momentos felizes, momentaneos e imaginativos. De qualquer modo, talvez, somente talvez, eu, em minha tentativa de não envelhecer muito rápido, já tenha feito isso por pensar tão cautelosamente sobre minhas decisões. Mas sobre isso, não pretendo pensar. Seria mais uma grande frustração e estou farta dessas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Do outro lado da Porta

Olá, depois de tanto tempo, hein, meus amigos? Cá estou eu, o texto não tem muito sentido, mas tem sentido para mim. Eu espero que vocês consigam entende-lo, prometo que daqui para frente, esse blog parará de ficar parado!

Beijos e Abraços,

Da Autora.

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Eu tinha simplesmente fechado a porta atrás de mim. Não era uma tarefa difícil, nem ao menos algo que merecesse muita concentração, mas me senti arrasado e um pouco aliviado. A sensação de não estar feliz daquele lado da porta, me matava a cada momento, destruia cada pedaço da minha alma e me tirava noites de sono, mesmo com a destruição que fui obrigada a oferecer para me fazer feliz, essa destruição que me arrasou um pouco, porque sabia que algo tinha terminado para sempre, sinto que nunca entendi tão fielmente o significado da frase "valer a pena". No final não existe o outro, o sentimento alheio e a felicidade alheia, se eu não me focasse em mim, no meu sentimento e em minha felicidade, transformar a outra pessoa em alguém de bem com a vida, não valeria absolutamente nada.

Seria andar a cada momento dentro daquela sala, olhar para a porta que me daria o alivio e virar as costas porque vi outra pessoa sofrendo. Para ser sincero, no mundo existe você, não existe alguém que te ame mais além de si próprio, tudo é passageiro, todos vão embora, morrem, desaparecem, viram poeira cósmica. O que se mantém, o que precisa se manter feliz, é você. É estúpido o que inventou o "para sempre", uma simples enganação sentimentalista que não serve para porcaria alguma, talvez para partir os corações das pessoas que uma vez disseram isso.

O que mais me importa foi ter certeza de minha consciência, aquela que se manteve tão limpa quanto o bumbum de uma criança recém-nascida. Não falei nada que não sentia, nem agi de maneira que eu achasse imprudente, usei as palavras que se encaixavam no momento e não disse outras simplesmente para agradar alguém. Falar um "eu te amo" em qualquer momento, torna a palavra banal. Falar um "eu te amo" quando você simplesmente não ama a pessoa no sentido encaminhado, te torna um ser falso. Eu não fui falso em nenhum momento, deixei o "eu te amo, meu amor" e mantive o "eu te amo, cara", que possui um significado completamente oposto ao anterior.

A porta se fechou, eu girei a chave, eu joguei a chave fora e eu não me importei mais. Liguei para alguém, dei uma volta e acendi um cigarro. Dei belas tragadas, sentindo a nicotina entrar em meu organismo e me relaxar aos poucos e ai eu destruí aquela porta pela minha imaginação. Eu queria poder deixar aquela porta entreaberta, deixar quem está do lado de lá, vir para o lado de cá, dar um oi, um aperto de mão e pedir uma tragada do meu cigarro. Mas como era impossível, eu aceitei a decisão alheia. Se magoei, parei.

Eu fui embora e caminhei pela rua deserta, apagando meu cigarro no asfalto e sentindo o ar da noite que percorria meus pulmões, ardendo com o frio, fechei os olhos quando a lua apareceu, naquele dia ela estava maior do que o resto do ano, era alguma coisa que envolvia ciência, o que importava era que aquele queijo grande no céu estava maior ainda, parecido com a minha liberdade. Ela crescia do mesmo modo. Eu sabia o que eu queria fazer, sou jovem e tenho uma boa vida, não quero que ela acabe aqui, vou seguir e fazer o que planejei, aquelas coisas que imaginei que ia fazer fora daquele lado da porta.

O que mais me espantava era que não me sentia mais mal, não tinha mais aquela sensação de peças fora do lugar como eu senti alguns anos antes quando fechei outra porta. As peças estavam lá, nos seus lugares, certinhas, limpas, bem ajeitadas. Eu sorri feito um bobo pensando que no final, nada mudou. Eu só parei durante um tempo e lá estava eu de novo tomando meu caminho. Aquela sensação era uma das melhores da vida, você sabe que nada pode te desanimar, mesmo sem quarto, casa, cama, comida. Somente aquele chão frio e aquela lua grande lá encima, era o suficiente para eu me sentir no lugar. Eu estava cansado, mas cansado porque fiquei mais tempo do que o planejado parado. Aos poucos você se acostuma com a sensação e suas forças voltam como eram antes.

Ativas. Eu estava novamente ativo.